Movimento contra a cooperação com a Mekorot cresce na Bahia

Organizações, movimentos e representantes parlamentares da Palestina e da Bahia estão pedindo a ruptura do acordo de cooperação técnica que as empresas públicas baianas de água, Embasa e CERB, assinaram em 2013 com a empresa estatal israelense da água Mekorot.

Denunciada em várias ocasiões pela ONU, a Mekorot é responsável por implementar o “apartheid da água” sobre o povo palestino, segregando o acesso à água por critério étno-racial. Os crimes da Mekorot incluem a pilhagem dos recursos naturais em território ocupado e a participação na limpeza étnica do povo palestino. Palestinos na Cisjordânia têm acesso, em média, a 60 litros água por dia enquanto colônos israelenses usam uma média de 700 litros por dia. Muitas comunidades palestinas que Israel quer expulsar de suas terras não têm acesso a água e, às vezes, Israel chega a sequestrar camiões-pipa palestinos. Além disso, a Mekorot é responsável por projetos de “gerenciamento” da água com efeitos ambientais devastadores, incluindo a lenta destruição de um patrimônio mundial como o Mar Morto.

Jamal Juma’ coordenador da Coligação Palestina da Defesa da Terra diz:

“É hora de cortar os laços com essa empresa violadora dos direitos humanos e substituí-los por laços de solidariedade entre o povo palestino e o povo brasileiro. Buenos Aires, Lisboa, Holanda e São Paulo já mostraram o caminho rompendo contratos com a Mekorot e confiamos que com o apoio da sociedade civil e de representantes políticos que prezam pelos direitos humanos podemos derrumbar também esse contrato na Bahia.”

A Campanha Palestina contra o Muro de Apartheid e a Coligação Palestina da Defesa da Terra, juntamente com movimentos brasileiros, o Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), o Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB), o Levante Popular da Juventude, a Comissão Pastoral da Terra e o Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA), encaminharam nessa semana uma carta aberta às empresas de água baianas pedindo o cancelamento da cooperação com a Mekorot.

Os movimentos declaram na carta:

“Recusamos o uso dessas tecnologias desenvolvidas durante décadas de limpeza étnica e de genocídio contra o povo palestino. Insistimos que o Brasil tem o saber e as tecnologias suficientes para encontrar soluções para as questões de saneamento e de acesso à agua. Basta implementar as políticas públicas necessárias.

O texto ressalta:

“Enquanto a Mekorot e Israel estão difundindo no Brasil e globalmente a propaganda que estão ajudando o povo baiano, na verdade, contratos entre empresas israelenses e as empresas da água e do saneamento do estado da Bahia contribuem somente para processos de privatização da nossa água.”

A carta vem depois que um requerimento de informação foi protocolado pelo deputado estadual Marcellino Galo (PT-BA), membro da Comissão de Meio Ambiente, Seca e Recursos Hídricos, da Frente Parlamentar Ambientalista da Bahia e da Comissão de Saúde e Saneamento. O requerimento relembra a posição oficial do governo brasileiro de rechaço a qualquer forma de legitimação da ocupação ilegal do território palestino e em a defesa da criação do Estado Palestino. O requerimento conclui que:

“em respeito às resoluções da ONU, aos princípios da autodeterminação dos povos, da dignidade da pessoa humana e do direito à terra, requeremos informações com relação a estes convênios, bem como, caso sejam confirmados, recomendamos o fim de qualquer relação com a empresa Mekorot, conglomerado com destacado papel na violação dos direitos do povo palestino.”

Com o slogan ‘Da Bahia a Palestina, temos sede de justiça”, a luta contra a cooperação da Embasa e da CERB com empresas israelenses vai ser levantada também ao I Grito da Água em Feira de Santana (21 Março, 8h) e o XVI Grito de Água em Salvador (22 de Março, 14h), organizado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente no Estado da Bahia (Sindae) em conjunto com organizações parceiras. A marcha do Grito da Água, organizada anualmenteem oacasão do Dia Internacional da Água (Março 22), é a maior manifestação pelo direito à Água na America Latina.

Os esforços dos movimentos palestinos e baianos contra os laços com a Mekorot e empresas israelenses fortalece o Movimento de Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel. Esse movimento popular e global tem conseguido pressionar governos, bancos e grandes multinacionais a cortarem ou reduzirem seus negócios com Israel e empresas e instituições conectadas às violações do direito internacional cometidas contra o povo palestino.

O movimento BDS começou em 2005, quando a sociedade civil palestina lançou um apelo conjunto aos povos e governos do mundo por Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel e entidades cúmplices de suas vioalações do direito internacional. O objetivo é cortar o financiamento às politicas de ocupação, apartheid e colonialismo israelenses e romper vínculos que legitimam ou financiam essas práticas.

Notas:
[1] Mais informações sobre a Mekorot: www.stopmekorot.org
[2] Texto integral da Carta Aberta dos movimentos contra a Mekorot

Março 16 2016

Carta aberta a Embasa e CERB:

Em Defesa da Justiça da Água na Palestina e na Bahia

As organizações abaixo se solidarizam com o pedido que nos chega da Palestina, denunciando as relações entre as instituições do Estado de Bahia e a empresa estatal israelense da água, Mekorot. Em 2013, a Embasa, a CERB e o governo baiano assinaram um acordo de cooperação técnica. No final de 2015, a Secretária da Infraestrutura Hídrica e Saneamento da Bahia, participou numa nova viagem a Israel, organizada pelo consulado israelense. Essas relações são usadas amplamente como propaganda por parte de Israel a nível local, nacional e global.

O povo palestino está sofrendo e resistindo à agressão israelense desde a criação do estado de Israel, que resultou na expulsão de 75% do povo palestino das terras que passaram a ser controladas por Israel, eventos conhecidos como ‘Nakba’ (‘catástrofe’ em árabe). Hoje, Israel continua as suas políticas de limpeza étnica, segregação e discriminação racial, e ocupa e coloniza cada dia mais terras palestinas. As colónias ilegais em território palestino, o Muro de Apartheid – com 9m de altura e 700 km de extensão – e o roubo da água palestina, são ferramentas fundamentais que confinam o povo palestino a uma área de não mais de 13% do seu território histórico.

A Mekorot construiu e gere a totalidade da rede nacional de água israelense implementando o “apartheid da água” sobre os palestinos, depredando os recursos naturais palestinos e criando as condições vitais para o processo ilegal de colonização. O consumo palestino nos territórios ocupados é de cerca de 70 litros diários por pessoa enquanto que o consumo diário per capita israelense é de cerca de 300 litros.

Na década de 1950 a Mekorot desviou e quase secou o rio Jordão para servir as comunidades israelenses. Com a ocupação da Cisjordânia, Gaza e Colinas de Golã em 1967, a empresa monopolizou o controle sobre as fontes de água nesses territórios em benefício dos assentamentos israelenses ilegais e segue negando o acesso à agua às comunidades palestinas como ferramenta de limpeza étnica.

Estas ‘experiências’ são exportadas por empresas, como a Mekorot, para financiar a economia israelense baseada na guerra e na colonização.

Para cortar essas fontes de financiamentos internacionais e de legitimação da política israelense, as organizações políticas e sociais palestinas, desde 2005, lançam um apelo ao mundo para boicotar, desinvestir e impor sanções contra Israel. Esse movimento conseguiu derrubar contratos da Mekorot em Buenos Aires, Lisboa, Holanda e São Paulo. Está na hora de cortar as relações da Bahia com essa empresa!

Assim, pedimos à Embasa, Cerb e Secretária da Infraestrutura Hídrica e Saneamento que terminem imediatamente com as suas relações com a Mekorot. Recusamos o uso dessas tecnologias desenvolvidas durante décadas de limpeza étnica contra o povo palestino. Insistimos que o Brasil tem o saber e as tecnologias suficientes para encontrar soluções para as questões de saneamento e de acesso à agua. Basta implementar as políticas públicas necessárias.

Enquanto a Mekorot e Israel propagandeiam no Brasil e no mundo que estão ajudando o povo baiano, os contratos entre empresas israelenses e as empresas da água e do saneamento do estado da Bahia contribuem, na verdade, somente para os processos de privatização da nossa água.

Estamos juntos pelo direito à agua, para todos e todas, na Bahia, no Brasil e na Palestina.

Assinam:

Desde Palestina:

Campanha Palestina Popular contra o Muro de Apartheid (Stop the Wall)
Coligação de Defesa da Terra

Desde Bahia:

Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
Levante Popular da Juventude
Comissão Pastoral da Terra (CPT)
Instituto Regional da Pequena Agropecuária Apropriada (IRPAA)